Diante do pequeno mausoléu, onde estavam sepultadas pessoas queridas de sua família, aquela moça transparecia um semblante triste, soluçante, de apelo angustiado como se estivesse perdida num mundo de deserções. Ela agora estava sozinha, sentia-se mesmo perdida. Seus pais se foram, um dos irmãos também. Preferia não pensar na tragédia. Mas não conseguia parar. Naquelas últimas semanas fora estimuladas por conhecidos até, a pensar nas boas coisas que fazia, e no que de bom ainda lhe restava, ou mesmo os bons aprendizados e momentos passados com quem acabara de perder . Pensou em algumas delas, mas só pensava no que deixou por fazer. Sobretudo à e com quelas pessoas.
Lembrava agora de suas rusgas com o pai. Quanta coisa deixou por resolver com ele. Quantos despautérios havia cometido por não ouví-lo. Quantos impropérios à mãe quando lhe tentava advertir da rebeldia do mundo. O universo tem suas leis, sabe domar a rebeldia humana, dizia a mãe. E o irmão, um bom garoto, deixara- uma família linda pela qual, lhe foi confiada por ele o auxílio de passar pela crise serenamente.
Uma senhora, sem querer saber dos motivos da angústia da moça, notando-lhe o sofrimento das dúvidas, sentou-se ao seu lado e foi, como se mostrava solidária, após uns momentos lhe ofereceu um abraço.
A moça murmurou: "não sei mais quem eu sou, acho que nunca soube". "Todos somos alguém, todos temos uma essência única, somos capazes", respodia a senhora. A moça não se interessou pelo carinho daquela senhora, que, notando coração aberto da jovem, continuou...
"Na época da guerra, meu sonho era ser dançarina, desde cedo. Não nasci aqui, mas num país em que os conflitos eram eminentes. Eu não entendia os motivos da guerra, só entendia de meu sonho. A dança era para mim, a maior forma de expressão. Me completava. Meus pais bondosos, notando minha disposição, cuidou que eu, desde cedo estudasse para me aprimorar no talento que eu apresentava. Frequentei grupos escolares de danças, e cada vez mais eu via poesia em minmhas emoções. Me casei ainda jovem com um homem que me apoiava. Era feliz até que, como aconteceu com muitos outros, e em função da guerra, me vi sozinha no mundo, sem meus pais, sem meu esposo. Fui enviada a um campo de concentração. Não era mais dançarina, não era mais filha amada, não era mais esposa admirada e dedicada, não era mais mulher de sonho vivido. Era agora uma mulher com medo, de incertezas, menosprezadas, órfã e viúva. Um dia, um tenente descobriu meu talento. Era horrível ter que dançar para aqueles soldados sujos, descabidos. Não me sentia mais com um sonho vivido, era a menor das criaturas. Foram anos vivendo assim, até o fim da guerra... Superei o trauma muito devagar, conheci algumas boas pessoas e descobri um segundo amor que me apoiou. Ele tinha vivido sofrimento semelhante ao meu. Me dediquei como esposa, resolvi trabalhar, me tornei professora, e hoje, anos depois, estou viúva, mas em franca atividade lecionando, angariando alunos que se tornam meus amigos, e também minha razão de viver. Não me sinto mais sozinha."
A moça, tocada pela história daquela senhora, de tantos altos e baixos, de tanta dor, sentiu-se melhor por se ver em situação mais privilegiada, uma vez que já se tornara independente. A falta que sentiria de sua família não se apagaria. Resolveu inquirir à senhora.
"Mas, minha senhora, como se recuperou? Foram tantas as situações, e todas desconexas, com dores, decepções, sonhos destruídos, a alma machucada profundamente... Como foi que conseguiu se encontrar. Como, dentre estes tantos papéis em que teve de atuar no palco de sua vida nem sempre iluminada, soube quem era a verdadeira?"
Tomou um pequeno panfleto de uma escola de música, entregou-o à moça, levantou-se devagar e, com sutil leveza, quase insuportável de tão belo, pôs-se a dançar na frente da moça. Uma dança suave, movimentos sincronizados, sorriso franco no rosto. A senhora lhe disse:
"Isso, minha querida, se buscarmos incessantemente, jamais esqueceremos".
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Este é um dos poucos contos que escrevi em minha vida.